20 de maio de 2010
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Índice de enganabilidade

por Revista Gotas

Eu diria que, num imaginário Índice de Enganabilidade, eu aceito bem qualquer coisa ate o nível 7. Daí a ideia de ir conversar com gente de duas profissões cujo trabalho é mentir com consentimento alheio.

O primeiro que encontrei foi João Roberto Topête, 47 anos, que há 15 virou Mágico Topete (enganação levinha: tirou o acento do nome para ficar mais fácil ser lembrado). “Eu sou o único mágico high tech de São Paulo”, disse enquanto me mostrava o colete de pescaria equipado com crachá de led, caneta laser e luz neon.

“Eu não uso fantasia, cartola. Chego, tô ali entre os convidados e aí, de repente, tiro um baralho do bolso. Surpreende, né?” Topete engana, mas é fã da transparência. “Sou do tipo antigo. Só falo a verdade, não jogo baralho por causa da habilidade com as mãos e não roubo nada. O que faço é ilusão de ótica.” Bom de business, comecou a elaborar mágicas que integram a atividade da esposa doceira. A dama de copas que ficou por cima do monte quando eu disse “corta” apareceu dentro de um envelope, agora feita de chocolate. Fiquei pasma. “Essa indignação aí que você tá sentindo é que faz a festa ficar boa.” Topete entende de festa.

É que são 15 anos de salão – festa de firma, festa de família, festa particular. “Homem acha difícil engolir quando não entende o que aconteceu. Você vê que eles ficam com raiva. Quando aparece um que quer revelar o truque, o que eu faço é chamá-lo pra me ajudar no palco.” É aquela história: diversão ou enganação, depende do seu lado do balcão.

Topete diz que essa falta de confiança é o maior desafio do mágico. “Você chega a um lugar onde tem 100 pessoas torcendo pra você errar.” Mas e aí? A falta de confiança muda o jeito de trabalhar? “Ah, sim. Nessas horas, eu ouso menos. Quando você sente que a galera está curtindo, aí você deslancha.” Prova de que, quanto maior o nível de confianca, mais alto o Índice de Enganabilidade.

A segunda turma de enganadores foram os caras da banda Guns N’Roses Cover Brazil. Liguei pro Nelson e, ao me apresentar, dei um jeito de dizer que já trabalhei na maior editora de revistas do país (enganação. Não é mentira, mas faz pensar que quem trabalha numa grande empresa é melhor profisisonal, o que não é necessariamente verdade). A gente seguiu nessa: eu no papel de jornalista (e, papel, como a gente sabe, tem nível altíssimo no Índice de Enganabilidade), o Nelson animado que a banda ia sair na imprensa. Ele me passou o endereço para encontrá-los – pô, Diadema?! Quem mandou escolher a primeira banda que apareceu no Google? – e marcamos no sábado de manhã, às 11. “Vou dizer pros caras chegarem às 10.”

Eu poderia ter escolhido qualquer banda cover, mas achei que uma do Guns daria uma bela foto.

Corvo, Nelson, Babão, Dinei e Banana estavam esperando fazia uma hora e meia quando cheguei. “A gente já tava achando que tinha caído numa pegadinha”, disse o Banana, criador da banda, cabelo comprido que nem o do baterista Matt Sorum. “Já que é pra ser cover, decidimos fazer direito: peruca, roupas. Nao dá pra ser baterista do Guns de bermuda.”

No ranking das bandas cover do Brasil, dá para dizer que eles são um sucesso. Fantástico, Faustão, turnê, mulheres: eles já experimentaram um bocado daquilo que os famosos vivem. “Tinha uma época em que inventavam todo tipo de lenda sobre a gente: que conhecíamos os caras do Guns, que fiz sete anos de aula de canto pra ficar com a mesma voz do Axl, que a gente era a banda cover oficial”, diz o Nelson. Típica enganação que só fez bem pra eles. “Há uns seis anos tinha tanto show que o cara de quem a gente contratava o serviço de van comprou uma nova só pra gente.”, diz o Banana.

Já teve treta também. “Nossa relação com o outro guitarrista era foda. Meu, o cara achava que ele era o Slash!” É,  enganação tá liberado. Autoenganação já é outra história. Conversando com eles, fica claro que a habilidade de se entregar à enganação cai à medida que envelhecemos. Não por acaso, o público deles é formado por gente bem jovem. “Voce vê que eles querem acreditar, querem se sentir num show do Guns”, diz Nelson.

Na banda, acontece algo parecido. O Corvo, 41, pai de gêmeos, diz que sabe muito bem que, no palco, é tudo uma mentira. O Nelson, 25, confessa que, na hora do show, se sente o Axl. “Tem horas que você fica meio perdido. Num dia, tá num hotel 5 estrelas, vista pro mar, dando autógrafos e aí, na segunda, volta para a casa.”

O Guns cover nao é grande entusiasta da transparência. “Não dá para falar só a verdade. Se você vai comprar um carro e o cara te diz os defeitos, ele vai ganhar credibilidade, mas você nao vai levar o carro”, diz o Corvo. “E tem coisas que não se deve falar de jeito nenhum. ‘Eu te amo’, por exemplo”, diz o Banana. Alguém logo entregou que o problema ali foi um pé na bunda. “É. Fiquei mal. Fiz até macumba para trazer a mina de volta. Mó enganação, não deu em nada.”

Com exceção do Dinei, que responde pelo enganador termo “disponível no mercado de trabalho”, todo mundo da banda tem outro emprego e sabe que nao dá para viver de cover. “A gente tá começando a pensar em parar. Mas precisamos ficar juntos pelo menos até o ano que vem, pra fazer a turnê de 10 anos da banda”, diz o Nelson. “Vai ser a mesma merda de sempre, mas a gente tá se enganando, achando que vai ser especial.”

20 de maio de 2010
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Não deixe o supermercado te enganar

por Revista Gotas

Hoje de manhã, coloquei na bolsa uma cópia do livro “Em defesa da comida”, do americano Michael Pollan, peguei meu bloquinho de anotações e fui ao supermercado caçar rótulos que estavam tentando me enganar.

Arrá, peguei o primeiro logo na entrada do supermercado, num daqueles corredores coloridos que tentam convencer você de que comer chocolate é mais divertido do que ir a uma festa. Era um pacote de bolacha, o Turmix, da Marilan. Malandrão. Lá no rótulo está escrito que é “rico em vitaminas, cálcio e ferro”, com letras bem grandes. Não é mentira, é verdade: uma bolacha supre 4,5% das necessidades de cálcio, ferro e vitaminas do complexo B – coma o pacote inteiro e você praticamente atingiu sua necessidade diária dessas coisas. Arrã, mas, se você fizer isso, vai ter consumido também 1.000 calorias (isso também está escrito na embalagem, numa letra vermelha clara sobre fundo rosa, do tamanho exato da largura de um palito de fósforo).

Cálcio, ferro e vitamina fazem mesmo bem para a saúde, mas fazem bem melhor quando estão dentro de vegetais, cercados de fibras, que ajudam a diminuir o ritmo da absorção. O que os engenheiros de alimentos fazem é arrancar esses minerais e vitaminas de outras coisas e introduzi-los no meio da farinha da bolacha, que praticamente não tem valor nutritivo. Vitamina e mineral são bons pacas, mas não é para procurar por eles nas bolachas ou nos pães ou sei lá onde: o lugar certo para encontrar essas coisas é onde sua vó dizia: nas frutas, verduras e legumes, meu filho.

Aí cheguei àquela ala dos bolos e pães. Minha embalagem preferida lá é a do bolinho Bebezinho com recheio de laranja, da Panco. Na parte da frente, tem um desenho de um bolinho ao fundo, mas o que se destaca mesmo é a imagem em primeiro plano, uma suculenta laranja, com gomos reluzentes de sumo. Fui então olhar lá atrás para ver do que é feito esse tal “recheio sabor de laranja”.

“Açúcar, suco de laranja, amido, aromatizante, acidulante, ácido cítrico, corante inorgânico dióxido de titânio, corante caramelo, corantes artificiais amarelo crepúsculo e amarelo tartrazina e conservador sorbato de potássio.” O Bebezinho jamais passou perto de uma laranja suculenta como a da ilustração. Só o que tem lá dentro é suco da fruta, desprovido de fibras e certamente mais pobre em vitaminas e minerais. As dicas do Michael Pollan me ajudaram a desmascarar o Bebezinho: “Evite produtos cujos ingredientes são a) não familiares, b) impronunciáveis, c) mais de cinco em quantidade…” Ele avisa também para nunca comprar nada que sua avó não identificaria como comida. Será que minha avó conhecia dióxido de titânio?

Aí cheguei aos pães. Ah, os pães, que imensa complicação que é comprar pão hoje em dia, com todos aqueles avisos exclamativos de que tudo faz bem (o livro de Pollan avisa que no geral é melhor evitar produtos com mensagens de muito destaque afirmando que faz bem para a saúde). Meu preferido lá foi o Pão Ômega, da Nutrella, decorado com um singelo coração, onde se lê “pão do coração – ômega 3:6”. Que malandros! Ômega-3 e ômega-6 são dois tipos de óleo que são essenciais para a nossa saúde. Só que a grande questão com eles não é a quantidade, é o balanço entre os dois. Você tem que ter níveis equilibrados de ômega 3 e 6 – se o nível de ômega-6 é muito mais alto que o de ômega-3 aumenta seu risco de doenças cardíacas.

Acontece que nossa dieta hoje tende a ter muito ômega-6 (encontrado em sementes, e, portanto, no óleo de soja que vai em produtos industrializados) e pouco ômega-3 (encontrado em peixes, algas e folhas verdes). Ou seja, precisamos de mais ômega-3 e de menos ômega-6. Portanto, quando um rótulo diz “pão do coração – ômega 3:6”, pode não estar mentindo, mas está tentando me enganar. Ainda mais quando descobrimos que cada fatia do pão tem 0,2 grama de ômega-6 e 0,1 grama de ômega-3. Continuei rumo às memórias da infância. Lembra do Yakult, com seus lactobacilos vivos? Vejamos o que diz atrás da embalagem:

“alimento com alegações de propriedades funcionais”. Alegações? Como assim? O que eles querem dizer com isso? Querem dizer que o tal L. casei Shirota, a bactéria presente dentro nos potinhos de plástico, inibiu o crescimento de outra bactéria, a H. pylori, causadora de inflamações, num tubo de ensaio. Mas, até hoje, nenhum cientista conseguiu provar que o célebre lactobacilo ataca o H. pylori no corpo humano. Para encurtar a história: não está provado que lactobacilos fazem bem. Mas tem uma coisa que está provada sim: os outros ingredientes do Yakult (“leite desnatado ou leite desnatado reconstituído, açúcar, glicose, fermento lácteo e aroma”) são praticamente vazios de nutrientes mportantes e atrapalham a boa nutrição. Além disso, leite reconstituído é pior do que leite de verdade.

Como regra, prefira comidas o menos processada possível. Lá pelo meio do supermercado topei com o velho Baconzitos, da Elma Chips. Sensacional. Numa sacada de marketing, o
clássico salgadinho foi relançado com balbúrdia, depois de andar desaparecido, desde que bacon virou uma comida, digamos, fora de moda. O Baconzitos é um caso engraçado. As pessoas o abandonaram por ser de bacon, mas a verdade é que ele não é. Veja os ingredientes: farinha de trigo, fécula de mandioca, óleo vegetal e… “preparado para salgadinho sabor idêntico ao natural de bacon”. Uau! Que diabos é isso? “Sal, farinha de arroz, açúcar, amido, maltodextrina, glucose, extrato de carne, realçador de sabor glutamato monossódico, aromatizante e corante caramelo.” Nada de bacon! Realmente, está escrito, bem grande, na embalagem: “Feito de trigo”. Verdade. Mas não significa que o Baconzitos, ou qualquer salgadinho de farinha refinada e óleo, faça bem. Por mais que as mensagens “0% gordura trans”, “fonte de energia” e “fonte de proteína e ácido fólico”
sugiram o contrário.

Chego então ao leite Ninho, da Nestlé, tão reluzente e ensolarado. No verso da caixa, um texto diz o seguinte. “Uma dica Ninho: procure ingerir três porções de leite ou seus derivados diariamente”. Repare que não está escrito que isso é bom para sua saúde. Trata-se apenas de uma “dica”, uma sugestão inocente. Mas o linguajar meio científico é para dar a sensação de conselho médico (“ingerir”, “porções”, “diariamente”). E a verdade é que os nutricionistas têm um monte de dúvidas sobre se beber leite é mesmo uma boa ideia, principalmente para adultos. Apesar de o cálcio ser importantíssimo para a saúde, há suspeitas de que ele não deve ser acompanhado de muitas proteínas para ser bem absorvido, e leite é cheio de proteína. As embalagens Nestlé geralmente são elegantes e muito ricas em informação correta. Mas aqui eles tentaram me enganar.

A dica fundamental de Pollan, na verdade, é que você prefira comer coisas que nem têm embalagem – frutas, legumes, verduras, carne. Enfim, comida – não produtos alimentícios. Verdade que, nos dias de hoje, nem mesmo uma maçã conta toda a verdade. Um estudo recente feito na Inglaterra, citado no livro, mostra que, para obter os mesmos níveis de ferro de uma maçã de 1940, você teria que comer três maçãs de hoje. Os níveis de zinco, cálcio, selênio, vitamina C e riboflavina da maçã também caíram bastante nas últimas décadas.

As frutas estão ficando menos nutritivas porque os solos estão se empobrecendo graças ao sistema industrial de produção, que enche a terra de nitrogênio, fósforo e potássio, mas esquece os outros nutrientes. Acontece que os outros nutrientes são fundamentais para a saúde, especialmente para proteger de doenças como o câncer. O melhor, então, é procurar vegetais produzidos em pequena escala, orgânicos de preferência. E ler as letras miúdas.

20 de maio de 2010
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Transparência e dados

por Revista Gotas

15 iniciativas online de transparência pública ao redor do mundo que podem nos inspirar.

Dados públicos abertos
Vários países criaram grandes portais no qual é disponibilizado todo tipo de dado coletado com dinheiro público, de gastos a nascimentos, de doenças a consumo.

DATA.GOV
Estados Unidos. Talvez a maior realização da gestão Obama…

DATA.AUSTRALIA
Austrália. Um convite a reutilizar informações públicas.

DIGITAL NZ
Nova Zelândia. Informações do governo e de ONGs.

OPEN GOVERNMENT INITIATIVE
Estados Unidos. A Casa Branca conclama a população a ajudar a governar.

VANCOUVER’S OPEN DATA CATALOGUE
Canadá. Um site municipal à altura desses outros sites federais.

Fiscalização de políticos
Há muitas experiências mundo afora de sites chamando a participação pública para colocar políticos na linha.

GOVTRACK
Estados Unidos. Site independente para começar um movimento de “hackeamento cívico” para acompanhamento das ações do Congresso americano.

OPEN PARLAMENTO
Itália. Iniciativa de acompanhamento e interação política com o parlamento italiano

NOS DÉPUTÉS
França. Observatório das atividades parlamentares.

Movimento pela transparência
Sites mantidos por ativistas e outros grupos independentes para defender mais abertura.

FREE OUR DATA
Reino Unido Movimento pela abertura de dados públicos.

CKAN
Canadá. Encontre dados públicos do mundo inteiro.

OPEN KNOWLEDGE FOUNDATION
Estados Unidos. Defende a abertura de todo tipo de dado.

OPEN DATA COMMONS
Canadá. Soluções e ferramentas legais para quem quer reutilizar dados abertos.

SUNLIGHT FOUNDATION
Estados Unidos. Fundação em defesa da transparência.

PRAJA.ORG
Índia. Com um lema inspirador e vago – “vamos fazer algo!” – tenta mobilizar a Índia.

CIVICUM
Itália. Conclama a participação pública para aumentar a eficiência do estado.

Por Pedro Markun

20 de maio de 2010
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Transparência e governos

por Revista Gotas

A história de como a transparência virou uma ferramenta para o governo governar.

Em 1929, a economia quebrou. Depois de anos de prosperidade, a bolsa despencou cataclismicamente. Diante da sensação generalizada de que as ações jamais parariam de cair, todo mundo tirou seu dinheiro da reta, o que fez com que as ações caíssem mais ainda. Era uma crise de confiança – o dinheiro perdia valor, fazendo com que as pessoas deixassem de acreditar no valor dele, o que fazia com que ele perdesse ainda mais valor.

A recuperação só começou em 1933. Franklin Roosevelt era presidente dos Estados Unidos e suas ideias sobre como reconstruir a economia tinham sido influenciadas por um livro que ele havia lido anos antes – “O Dinheiro de Outras Pessoas e como os Banqueiros o Usam”, escrito por um juiz da Suprema Corte americana chamado Louis Brandeis. No trecho mais famoso do livro, Brandeis escreve que “a luz do sol é tida como o melhor dos desinfetantes, e a luz elétrica é o mais eficiente policial”. Roosevelt resolveu levar a metáfora a sério na hora de projetar a nova economia mundial. E criou o que os autores do livro “Full Disclosure” chamam de “transparência programada” – o novo jeito de um governo trabalhar.

Até então, governos tinham só duas armas para regular a economia e defender o interesse público: estabelecendo regras (e punições para quem não as cumprisse) ou criando incentivos de mercado. É a tal história das duas cenouras, a frontal e a traseira. A transparência programada não é nem um nem outro, embora tenha parentesco com ambas. Trata-se de obrigar empresas a divulgar informações que elas prefeririam deixar secretas. E deixar que o público decida o que fazer com as informações. No caso de Roosevelt, a transparência programada serviu para sair da Grande Depressão, com leis que obrigavam empresas com ações na bolsa a divulgar ao público informações que os executivos não contavam nem para as mães deles, de maneira periódica, padronizada e simplificada.

Deu certo. Num ambiente de mais transparência, a confiança foi restaurada. As ações subiram. Mesmo os empresários, que antes preferiam que não houvesse transparência, acabaram sendo favorecidos pelo novo ambiente. Os dois lados – empresas e investidores – saíram ganhando.

Não adianta nada ser transparente com informação inútil. Numa pacata cidadezinha de interior americano, um aviso aos cidadãos para se preocuparem com terroristas: exemplo perfeito de política de transparência que não serve para nada.

O livro “Full Disclosure”, escrito em 2007, em conjunto, por um cientista político, um economista e um advogado, é o primeiro esforço multidisciplinar de compreender essa novidade do mundo das políticas públicas, criada por Roosevelt, que é a “transparência programada”. Uma novidade que tende a se tornar cada vez maiscomum, ainda mais agora, em que temos outra imensa crise de
confiança para vencer. Os autores metodicamente analisam 18 experimentos de transparência programada para tentar entender quando ela funciona e quando não funciona.

Há gloriosos sucessos, como o caso dos restaurantes de Los Angeles, que foram obrigados pela prefeitura a postar na vitrine, em letras mastodônticas, a nota que receberam na inspeção da vigilância sanitária: A, B ou C. Restaurantes que tiraram nota A acabaram tendo um aumento de 5,7% nas suas vendas, enquanto os que tiraram C viram uma redução de 1%. No geral, mais gente comeu em restaurantes porque a confiança no sistema cresceu. Em pouco tempo, os índices médios de higiene subiram 5,3% na cidade toda porque os donos dos restaurantes perceberam que sairiam ganhando se melhorassem a limpeza.

Há também fracassos retumbantes, como a tentativa de transparência projetada do governo W. Bush, que criou uma classificação do nível de ameaça terrorista (azul, verde, amarelo, laranja ou vermelho). As cores só serviram para aumentar a ansiedade nacional. Ninguém sabia exatamente como reagir aos alertas, a diferença entre os níveis era nebulosa, ninguém entendia os critérios. Nesse caso, o governo deu ao povo informação da qual ele não precisava e que não servia em nada para sua vida.

Em linhas gerais, o livro conclui que políticas de transparência programada funcionam quando levam em conta o modo como as pessoas consomem informação. Não adianta soltar dados no mundo sem garantir que eles estejam contextualizados, fáceis de entender, incorporados à rotina de decisão das pessoas – um dos motivos pelos quais a experiência dos restaurantes foi tão bem-sucedida é que as notas estavam coladas na vitrine, por onde todo mundo passa antes de sentar à mesa.

Para terminar, “Full Disclosure” tenta prever o futuro, quando mais e mais políticas de transparência programada deverão surgir. Com as possibilidades da internet, políticas de transparência vão se tornar ainda mais poderosas porque agora vai ser possível que qualquer cidadão forneça informações ao sistema. Qualquer um – não só o governo – pode instituir sua própria política de  transparência programada para ajudar a mudar o mundo. Mas isso não quer dizer que toda transparência seja boa. Iniciativas desse tipo vão funcionar se derem às pessoas as informações de que elas precisam de maneira clara, confiável e simples. Se não, se colocarmos mais informação inútil no mundo, nossas ideias vão ser ignoradas, como as cores de W. Bush. Talvez até façam mais mal do que bem.

Por Denis Russo Burgierman. Foto: Nina Berman (Noor).

19 de maio de 2010
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Sem Photoshop

por Revista Gotas

Saí às ruas conversando com as pessoas para ver o que elas revelam. Aqui, nestes diálogos, não tem Photoshop. É tudo tal e qual.

– O senhor tem identidade de jornalista? Faz favor, mostre a sua identificação!
O calor da situação não deixa saber de que lugar do Nordeste é aquele homem, mas ele fala grosso. Dono da pequena barbearia, de repente fica incomodado com a reportagem – até ali, uma breve conversa com o outro barbeiro, de quem já não se poderia saber se empregador ou sócio majoritário.

– É Globo, é não sei o quê! Já tive muitos problemas aqui!
Eu entrei fazia três minutos, querendo ouvir algumas ideias a respeito de “transparência” e agora sou incitado a ser transparente. Ele abre a porta do banheirinho na garagem – procura algo?, vai mijar?, serei confinado?

– Cartão não, eu não quero. Mostra o RG!
Estava na cara que era um tema difícil, mas quem imaginaria que eu me meteria em uma ópera bufa? O sujeito dá um show de transparência na minha frente e não há como ignorar que suas palavras, sua atitude, seus gestos, tudo nele é grosseria. Se eu pudesse escolher, preferia que fosse menos transparente e, daí, mais educado. O outro barbeiro, ao contrário, parece uma avenca. Será que é  mesmo? Ou vai se desfazer do sorriso desmaiado, pegar um cabo de vassoura e se juntar ao que tem uma pendenga com a Globo? Havia me dito que se chama Elmiro Marques, que é baiano de Castro Alves, e que tem 53 anos.

– Sem mentira, sem trapaça, certo? Eu acho que, se o mundo fosse todo desse jeito, melhor seria. O meu negócio é muito certo. Eu gosto de cumprir as minhas obrigações e gostaria que todos  também cumprissem as suas comigo. Mas, infelizmente, não é sempre assim. Afirma que não é casado, mas vive com uma mulher. Se tem segredos?

– Não! Minha vida é um livro aberto.
Eu sabia.

– Eu nem tenho segredo nem gosto de ouvir segredos de ninguém.
Será que o senhor trabalha no lugar certo?

– Aqui sempre alguém chega e fala alguma ou outra coisa, mas pra mim é como se fosse… a gente conversando normal, sabe? O que o pessoal conta aqui, aqui mesmo ficou, não guardo aquilo. Tem gente que fala muita coisa, mas, pra mim, falou aqui, daqui a cinco minutos já está tudo diluído, não lembro mais de nada do que foi dito.
Saio do barbeiro e, em busca de um pouco de erudição, encontro Rafic Farah, 60 anos, arquiteto e designer. Pergunto a ele. O senhor é sincero, nunca mentiu?

– Nunca menti na minha vida. Nunca, nunca! Talvez esta seja a última.
Bem, nosso tema é transparência mesmo.

– Eu sou absolutamente transparente, gosto de tudo transparente. Você vê que as meninas [que trabalham em seu estúdio] vêm com roupa transparente.
Ele atende uma chamada, dizem que é importante. Fala à minha frente sem pudores de negócios, projetos…

– A gente fica lá no bangalô, lá no meio do mato. [Pequena pausa para ouvir o interlocutor.] É, eu e o tamanduá. Arquitetura, cidades emparedadas… Qual é a diferença entre intimidade e ter algo a
esconder? Ora, privacidade é um direito. Onde estão esses limites?

– A transparência não tem nada a ver com arquitetura. Você abre um vidro num lugar pra poder ver a rua, pra poder ver o Sol, as árvores. Ninguém que faz uma casa de vidro quer ser visto. Faz uma casa de vidro pra entrar sol, pra ver o mundo. De dentro da sua casa, você vê a vida, a paisagem, vê as pessoas passando, tudo isso é bonito, não é BBB.

Depois encontro a jornalista Annamaria Aglio, 42 anos, que conta que leu clandestinamente o torpedo que um menino enviou para sua filha de 13 anos.

– Ela esqueceu o celular dela no carro, tocou, eu vi que era um menino… Leio, não leio, leio, não leio… Então, li. Estava escrito “eu te amo” dezenas de vezes!
Mas o pior estava por vir.

– Ele mandou outro torpedo em seguida, dessa vez chamando ela de “meu bebê”! Poxa, ela não me deixa mais chamá-la de bebê faz algum tempo!
A menina ficou louca quando soube que a mãe havia invadido sua privacidade. Mas se calou quando foi lembrada de que também já havia feito a mesma coisa.

– Uma vez chegaram flores pra mim em casa e ela correu ler o cartão pra ver quem tinha mandado.
Entro num café chique. Cibele Santana, 26 anos, trabalha lá e vai logo abrindo o jogo. Lembra que, na cozinha, acontece de fugirem do procedimento.

– A recomendação da consultora de saúde é: não pode pôr frango e queijo no mesma gaveta do freezer por causa da contaminação cruzada. Mas, na pressa, as meninas às vezes põem.
Como ser verdadeiro com os clientes? “Boa tarde, senhor, desculpe, é que a mocinha deixou o queijo junto com o frango, o que só foi descoberto dez minutos depois. O senhor prefere evitar o risco de uma contaminação cruzada ou vai comer o misto-quente mesmo assim?” Não dá. Ou dá? O conceito de transparência é entendido das maneiras mais diversas, como prova o chefe de cozinha Manoel Vicente da Silva, 51 anos, pernambucano do Recife.

– Olha, é o seguinte: o trabalho é um pouco corrido, tem um pouco de tranquilidade também, mas… Não tenho nada contra, não tenho o que falar. Tem que trabalhar, vamos trabalhar. Se for coisa que a gente puder resolver, a vida tá ótima. O público também, uma maravilha. Nessa época agora, vai melhorar mais a situação ainda.

Se na hora eu tivesse de ser transparente, diria que ele estava acabando com a pauta. Insisto no tema: Manuel, você se considera uma pessoa íntegra, 100% honesta, um sujeito assim, que nunca fez nada errado?
– Olha… [longa pausa] se a pessoa falar “nunca errei”, o cabra tá mais errado ainda… A gente erra. Mas tem o tipo de erro que a gente faz. Não errar, qualquer coisa, não tem como… Errar, já errei, mas, como eu falei, não uma coisa absurda. O que a gente pode resolver de imediato…

Você sempre fala a verdade?
– Sempre falo a verdade. Mesmo que vá doer um pouco.

– Mesmo que vá doer, eu tenho que falar a verdade. Porque aqui, neste mercado, neste ramo, eu tenho que chegar e falar “aconteceu assim”, entende?
Entendo. No meu ramo, é desse jeito também. Aconteceu assim.

Enquanto conversava com as pessoas, fiquei misturando seus rostos com recortes de revista e tirando fotos. Aqui também não tem Photoshop.

Por Otávio Rodrigues.