As histórias que não são contadas são como se não tivessem acontecido. Daí colocar câmeras de cinema na mão dos índios.
Vincent Carelli começou o projeto Vídeo nas Aldeias em 1987, primeiro filmando os índios, depois ensinando-os a filmar. Desde então já foram produzidas 3.000 horas de imagens de 40 povos brasileiros, numa coleção com mais de 70 vídeos, sendo metade de autoria indígena. Em 2009, Carelli lançou “Corumbiara”, cujos 120 minutos têm emocionado plateias e jurados. Ao revisitar o material que coletou e guardou ao longo de 20 anos sobre o massacre dos índios akuntsu, em Rondônia, Carelli confirma, mais uma vez, o poder do audiovisual como uma ferramenta de reflexão e reconhecimento da nossa história.
São mais de 20 anos de Vídeo nas Aldeias. Já existe uma geração de realizadores indígenas.
Já tem uma geração apaixonada pelo cinema e tem gente começando a colocar as caras para fazer cinema. Mas eu acho que o que era preciso é multiplicar os centros formadores porque a demanda dos índios é grande, o país é grande.
Então os índios deixaram a posição de objeto de documentários para se tornarem sujeito?
Eu acho que sujeitos eles sempre tentam ser, mesmo quando são filmes feitos por gente de fora. Porque a visibilidade é tão importante para eles que eles sempre tentam assumir a voz, como fizeram nos dez primeiros anos do Vídeo nas Aldeias, onde era praticamente a minha câmera a serviço dos projetos deles. Mas agora eles têm o processo na mão. Ou seja, a entrevista é feita na língua deles, com quem eles escolhem falar. É isso que possibilita dar uma real expressão dos personagens, uma expressão livre, sem a barreira da língua, do desconhecimento sobre a pessoa. Uma relação de intimidade entre quem filma e quem atua, que faz diferença.
Diferença na vida dos índios ou no resultado do filme?
Sobretudo na apropriação do filme. Eu acho que esse é um cinema de iniciativa coletiva, de desejo coletivo. Não existe muito essa relação entre cineasta e objeto. Assim como o cinema do [Eduardo] Coutinho depende completamente da performance dos seus personagens, nos filmes dos índios os personagens assumem a direção, a criação da cena. E também porque tão importante quanto o filme é o processo de autoconhecimento que a produção do filme gera. A gente sempre aprende muito com os temas que os filmes desenvolvem. O objeto do filme entra num circuito de circulação de informação na comunidade, principalmente quando os cinegrafistas descobrem coisas sobre as quais os outros nunca ouviram falar. Os caras nasceram e vivem ali e ficam fascinados ao descobrir coisas sobre eles mesmos que desconheciam. O objetivo inicial do Vídeo nas Aldeias era apoiar as lutas dos povos indígenas para fortalecer suas culturas e seus territórios.

Esta é Ururu, que morreu no último dia 1º de outubro em uma pequena aldeia de Corumbiara, Rondônia. Ururu sobreviveu ao massacre do seu povo, os akuntsus, que, em 1985, foi atacado por madeireiros. Hoje só há cinco akuntsus vivos.
Ao longo do projeto, o objetivo se alargou?
Ir além é impossível, isso é tudo. Essa questão da visibilidade é politicamente estratégica para eles. Eles sabem que todo poder de negociação deles, de coisas concretas mesmo, com o governo, pesa o fato de as pessoas os conhecerem. Muito mais do que denúncias, eles querem mostrar sua cultura, sua identidade, porque a história oral ficou omprometida, vários mecanismos de transmissão de patrimônio cultural foram alterados. Então é preciso encontrar novas formas de socialização e de transmissão de conhecimentos.
Como acontecem as oficinas do Vídeo nas Aldeias?
O principio do método é aprender fazendo, não tem nada daquelas babaquices de plano médio, plano americano. É aprender a usar a câmera e sair filmando. O segundo ponto é o aprendizado coletivo. A gente filma e em algum momento do dia a gente se reúne e assiste ao que todo mundo filmou. Cria-se uma dinâmica de competição sadia e também de aprendizagem com os erros e acertos dos outros. Tentamos conter o ímpeto de imitar a televisão e praticar um cinema de observação, um cinema direto, através do exercício do personagem. Primeiramente o cinegrafista tem que estabelecer uma relação com o seu personagem. É um trato. Você quer ser meu personagem? Posso filmar você? Se o cara aceita, então vai criar o personagem. É preciso que o cinegrafista aprenda com o personagem a criar um tempo, uma intimidade necessária para que se tenha uma expressão espontânea, livre. São filmes construídos progressivamente. Não são filmes de roteiro. Tem um personagem, tem uma situação e tem um rumo. E aí vai, a realidade que diga.
O personagem é fictício ou é real?
É a história de alguém. Mas esse alguém fatalmente está atuando.
“Corumbiara” levou 20 anos para ser feito. Quando você percebeu que tinha um filme nas mãos?
Esse filme estava engavetado, foi uma história com idas e vindas e muitos reveses. Parei, passei a me dedicar à formação de cineastas indígenas. Então uma jornalista holandesa me entrevistou [em 2006], me empolguei no depoimento e comecei a repensar o filme. É um filme muito pessoal, cujas imagens eu custei a assistir sem chorar. O Joel Pizzini [diretor de “500 Almas”, sobre os índios do Mato Grosso do Sul] disse que, quando ele viu a premiação de “Corumbiara”, em Gramado, sentiu como se fosse a nossa vitória, dele também, enfim, a vitória do tema, um sentimento mais coletivo da vitória. Eu estou superfeliz com a comoção do público. Nunca pensei que fosse chegar a tanto. Provavelmente será o filme da minha vida. Bom, a gente não faz muitos filmes na vida, mas certamente não haverá outro filme da minha parte com essa densidade.
Por Mariana Lacerda. Foto: Vincent Carelli




















