Eu diria que, num imaginário Índice de Enganabilidade, eu aceito bem qualquer coisa ate o nível 7. Daí a ideia de ir conversar com gente de duas profissões cujo trabalho é mentir com consentimento alheio.
O primeiro que encontrei foi João Roberto Topête, 47 anos, que há 15 virou Mágico Topete (enganação levinha: tirou o acento do nome para ficar mais fácil ser lembrado). “Eu sou o único mágico high tech de São Paulo”, disse enquanto me mostrava o colete de pescaria equipado com crachá de led, caneta laser e luz neon.
“Eu não uso fantasia, cartola. Chego, tô ali entre os convidados e aí, de repente, tiro um baralho do bolso. Surpreende, né?” Topete engana, mas é fã da transparência. “Sou do tipo antigo. Só falo a verdade, não jogo baralho por causa da habilidade com as mãos e não roubo nada. O que faço é ilusão de ótica.” Bom de business, comecou a elaborar mágicas que integram a atividade da esposa doceira. A dama de copas que ficou por cima do monte quando eu disse “corta” apareceu dentro de um envelope, agora feita de chocolate. Fiquei pasma. “Essa indignação aí que você tá sentindo é que faz a festa ficar boa.” Topete entende de festa.
É que são 15 anos de salão – festa de firma, festa de família, festa particular. “Homem acha difícil engolir quando não entende o que aconteceu. Você vê que eles ficam com raiva. Quando aparece um que quer revelar o truque, o que eu faço é chamá-lo pra me ajudar no palco.” É aquela história: diversão ou enganação, depende do seu lado do balcão.
Topete diz que essa falta de confiança é o maior desafio do mágico. “Você chega a um lugar onde tem 100 pessoas torcendo pra você errar.” Mas e aí? A falta de confiança muda o jeito de trabalhar? “Ah, sim. Nessas horas, eu ouso menos. Quando você sente que a galera está curtindo, aí você deslancha.” Prova de que, quanto maior o nível de confianca, mais alto o Índice de Enganabilidade.
A segunda turma de enganadores foram os caras da banda Guns N’Roses Cover Brazil. Liguei pro Nelson e, ao me apresentar, dei um jeito de dizer que já trabalhei na maior editora de revistas do país (enganação. Não é mentira, mas faz pensar que quem trabalha numa grande empresa é melhor profisisonal, o que não é necessariamente verdade). A gente seguiu nessa: eu no papel de jornalista (e, papel, como a gente sabe, tem nível altíssimo no Índice de Enganabilidade), o Nelson animado que a banda ia sair na imprensa. Ele me passou o endereço para encontrá-los – pô, Diadema?! Quem mandou escolher a primeira banda que apareceu no Google? – e marcamos no sábado de manhã, às 11. “Vou dizer pros caras chegarem às 10.”
Corvo, Nelson, Babão, Dinei e Banana estavam esperando fazia uma hora e meia quando cheguei. “A gente já tava achando que tinha caído numa pegadinha”, disse o Banana, criador da banda, cabelo comprido que nem o do baterista Matt Sorum. “Já que é pra ser cover, decidimos fazer direito: peruca, roupas. Nao dá pra ser baterista do Guns de bermuda.”
No ranking das bandas cover do Brasil, dá para dizer que eles são um sucesso. Fantástico, Faustão, turnê, mulheres: eles já experimentaram um bocado daquilo que os famosos vivem. “Tinha uma época em que inventavam todo tipo de lenda sobre a gente: que conhecíamos os caras do Guns, que fiz sete anos de aula de canto pra ficar com a mesma voz do Axl, que a gente era a banda cover oficial”, diz o Nelson. Típica enganação que só fez bem pra eles. “Há uns seis anos tinha tanto show que o cara de quem a gente contratava o serviço de van comprou uma nova só pra gente.”, diz o Banana.
Já teve treta também. “Nossa relação com o outro guitarrista era foda. Meu, o cara achava que ele era o Slash!” É, enganação tá liberado. Autoenganação já é outra história. Conversando com eles, fica claro que a habilidade de se entregar à enganação cai à medida que envelhecemos. Não por acaso, o público deles é formado por gente bem jovem. “Voce vê que eles querem acreditar, querem se sentir num show do Guns”, diz Nelson.
Na banda, acontece algo parecido. O Corvo, 41, pai de gêmeos, diz que sabe muito bem que, no palco, é tudo uma mentira. O Nelson, 25, confessa que, na hora do show, se sente o Axl. “Tem horas que você fica meio perdido. Num dia, tá num hotel 5 estrelas, vista pro mar, dando autógrafos e aí, na segunda, volta para a casa.”
O Guns cover nao é grande entusiasta da transparência. “Não dá para falar só a verdade. Se você vai comprar um carro e o cara te diz os defeitos, ele vai ganhar credibilidade, mas você nao vai levar o carro”, diz o Corvo. “E tem coisas que não se deve falar de jeito nenhum. ‘Eu te amo’, por exemplo”, diz o Banana. Alguém logo entregou que o problema ali foi um pé na bunda. “É. Fiquei mal. Fiz até macumba para trazer a mina de volta. Mó enganação, não deu em nada.”
Com exceção do Dinei, que responde pelo enganador termo “disponível no mercado de trabalho”, todo mundo da banda tem outro emprego e sabe que nao dá para viver de cover. “A gente tá começando a pensar em parar. Mas precisamos ficar juntos pelo menos até o ano que vem, pra fazer a turnê de 10 anos da banda”, diz o Nelson. “Vai ser a mesma merda de sempre, mas a gente tá se enganando, achando que vai ser especial.”






















Comentários
Muito bom!!
Legal demais.