Saí às ruas conversando com as pessoas para ver o que elas revelam. Aqui, nestes diálogos, não tem Photoshop. É tudo tal e qual.
– O senhor tem identidade de jornalista? Faz favor, mostre a sua identificação!
O calor da situação não deixa saber de que lugar do Nordeste é aquele homem, mas ele fala grosso. Dono da pequena barbearia, de repente fica incomodado com a reportagem – até ali, uma breve conversa com o outro barbeiro, de quem já não se poderia saber se empregador ou sócio majoritário.
– É Globo, é não sei o quê! Já tive muitos problemas aqui!
Eu entrei fazia três minutos, querendo ouvir algumas ideias a respeito de “transparência” e agora sou incitado a ser transparente. Ele abre a porta do banheirinho na garagem – procura algo?, vai mijar?, serei confinado?
– Cartão não, eu não quero. Mostra o RG!
Estava na cara que era um tema difícil, mas quem imaginaria que eu me meteria em uma ópera bufa? O sujeito dá um show de transparência na minha frente e não há como ignorar que suas palavras, sua atitude, seus gestos, tudo nele é grosseria. Se eu pudesse escolher, preferia que fosse menos transparente e, daí, mais educado. O outro barbeiro, ao contrário, parece uma avenca. Será que é mesmo? Ou vai se desfazer do sorriso desmaiado, pegar um cabo de vassoura e se juntar ao que tem uma pendenga com a Globo? Havia me dito que se chama Elmiro Marques, que é baiano de Castro Alves, e que tem 53 anos.
– Sem mentira, sem trapaça, certo? Eu acho que, se o mundo fosse todo desse jeito, melhor seria. O meu negócio é muito certo. Eu gosto de cumprir as minhas obrigações e gostaria que todos também cumprissem as suas comigo. Mas, infelizmente, não é sempre assim. Afirma que não é casado, mas vive com uma mulher. Se tem segredos?
– Não! Minha vida é um livro aberto.
Eu sabia.
– Eu nem tenho segredo nem gosto de ouvir segredos de ninguém.
Será que o senhor trabalha no lugar certo?
– Aqui sempre alguém chega e fala alguma ou outra coisa, mas pra mim é como se fosse… a gente conversando normal, sabe? O que o pessoal conta aqui, aqui mesmo ficou, não guardo aquilo. Tem gente que fala muita coisa, mas, pra mim, falou aqui, daqui a cinco minutos já está tudo diluído, não lembro mais de nada do que foi dito.
Saio do barbeiro e, em busca de um pouco de erudição, encontro Rafic Farah, 60 anos, arquiteto e designer. Pergunto a ele. O senhor é sincero, nunca mentiu?
– Nunca menti na minha vida. Nunca, nunca! Talvez esta seja a última.
Bem, nosso tema é transparência mesmo.
– Eu sou absolutamente transparente, gosto de tudo transparente. Você vê que as meninas [que trabalham em seu estúdio] vêm com roupa transparente.
Ele atende uma chamada, dizem que é importante. Fala à minha frente sem pudores de negócios, projetos…
– A gente fica lá no bangalô, lá no meio do mato. [Pequena pausa para ouvir o interlocutor.] É, eu e o tamanduá. Arquitetura, cidades emparedadas… Qual é a diferença entre intimidade e ter algo a
esconder? Ora, privacidade é um direito. Onde estão esses limites?
– A transparência não tem nada a ver com arquitetura. Você abre um vidro num lugar pra poder ver a rua, pra poder ver o Sol, as árvores. Ninguém que faz uma casa de vidro quer ser visto. Faz uma casa de vidro pra entrar sol, pra ver o mundo. De dentro da sua casa, você vê a vida, a paisagem, vê as pessoas passando, tudo isso é bonito, não é BBB.
Depois encontro a jornalista Annamaria Aglio, 42 anos, que conta que leu clandestinamente o torpedo que um menino enviou para sua filha de 13 anos.
– Ela esqueceu o celular dela no carro, tocou, eu vi que era um menino… Leio, não leio, leio, não leio… Então, li. Estava escrito “eu te amo” dezenas de vezes!
Mas o pior estava por vir.
– Ele mandou outro torpedo em seguida, dessa vez chamando ela de “meu bebê”! Poxa, ela não me deixa mais chamá-la de bebê faz algum tempo!
A menina ficou louca quando soube que a mãe havia invadido sua privacidade. Mas se calou quando foi lembrada de que também já havia feito a mesma coisa.
– Uma vez chegaram flores pra mim em casa e ela correu ler o cartão pra ver quem tinha mandado.
Entro num café chique. Cibele Santana, 26 anos, trabalha lá e vai logo abrindo o jogo. Lembra que, na cozinha, acontece de fugirem do procedimento.
– A recomendação da consultora de saúde é: não pode pôr frango e queijo no mesma gaveta do freezer por causa da contaminação cruzada. Mas, na pressa, as meninas às vezes põem.
Como ser verdadeiro com os clientes? “Boa tarde, senhor, desculpe, é que a mocinha deixou o queijo junto com o frango, o que só foi descoberto dez minutos depois. O senhor prefere evitar o risco de uma contaminação cruzada ou vai comer o misto-quente mesmo assim?” Não dá. Ou dá? O conceito de transparência é entendido das maneiras mais diversas, como prova o chefe de cozinha Manoel Vicente da Silva, 51 anos, pernambucano do Recife.
– Olha, é o seguinte: o trabalho é um pouco corrido, tem um pouco de tranquilidade também, mas… Não tenho nada contra, não tenho o que falar. Tem que trabalhar, vamos trabalhar. Se for coisa que a gente puder resolver, a vida tá ótima. O público também, uma maravilha. Nessa época agora, vai melhorar mais a situação ainda.
Se na hora eu tivesse de ser transparente, diria que ele estava acabando com a pauta. Insisto no tema: Manuel, você se considera uma pessoa íntegra, 100% honesta, um sujeito assim, que nunca fez nada errado?
– Olha… [longa pausa] se a pessoa falar “nunca errei”, o cabra tá mais errado ainda… A gente erra. Mas tem o tipo de erro que a gente faz. Não errar, qualquer coisa, não tem como… Errar, já errei, mas, como eu falei, não uma coisa absurda. O que a gente pode resolver de imediato…
Você sempre fala a verdade?
– Sempre falo a verdade. Mesmo que vá doer um pouco.
– Mesmo que vá doer, eu tenho que falar a verdade. Porque aqui, neste mercado, neste ramo, eu tenho que chegar e falar “aconteceu assim”, entende?
Entendo. No meu ramo, é desse jeito também. Aconteceu assim.

Enquanto conversava com as pessoas, fiquei misturando seus rostos com recortes de revista e tirando fotos. Aqui também não tem Photoshop.
Por Otávio Rodrigues.






















